sexta-feira, 28 de junho de 2013

O ser humano do sexo masculino que co-participou na minha concepção


Não lhe chamo pai, porque para mim, pai é quem cria, quem está perto de nós nos bons e maus momentos, quem dá afecto, carinho, amor e quem sabe ralhar e dar umas palmadas quando o nosso comportamento não é o melhor. Para mim, pai não é aquele que fornece o espermatozóide, que mais tarde originará um ser humano, e que dá por terminado por aí o seu contributo para a vida do seu filho.

A minha mãe e o meu pai começaram a namorar quando a minha mãe veio morar para Portugal e foi estudar para a universidade onde o meu pai já estudava. A minha mãe era caloira, o meu pai estava no último ano e era um menino prodígio. Diz-se por aí que o meu pai era lindo, para além de ser uma pessoa muito inteligente e cativante e que a minha mãe continua a ser a caloira mais bonita que já passou por aquela universidade. Foram ambos alvo do cupido e por descuido, dessa paixão assolapada nasci eu. Entretanto, meu pai licenciou-se e a minha mãe continuava a estudar para terminar o curso. Casaram. Os primeiros anos correram às mil maravilhas. O meu pai tinha sucesso profissionalmente, destacava-se, como ainda se destaca na sua carreira, a minha mãe terminou o curso e começou a leccionar, como sempre tinha ambicionado. 
Sinceramente, não me recordo de grande coisa desta época em conjunto, não sei se era por ser muito pequena, se por ter banido essas recordações da minha mente, ou se por o meu pai se dedicar mais à carreira que à família. 
Cinco anos após o meu nascimento a minha mãe engravida novamente e ainda grávida da minha irmã decide divorciar-se do meu pai. Já não havia amor, a única ambição do meu pai era a construção sólida da sua carreira e não há relação que resulte se não houver entrega de ambas as partes.
Lembro-me de nos primeiros anos após o divórcio o meu pai se ter arrependido das escolhas que tinha feito e de se ter aproximado de mim e da minha irmã. Tentava desculpabilizar a sua anterior ausência oferecendo-nos prendas, fazendo-nos todas as vontades e cedendo a todos os nossos caprichos. 
Entretanto a minha mãe começou a namorar (namoro que dura até hoje) e aí começaram a surgir os problemas. O meu pai não queria aceitar, não reagiu bem e afastou-se não só da minha mãe como também das duas filhas. De um momento para o outro deixou de mostrar interesse em mim e na minha irmã. Deixou de cumprir as suas funções como pai, deixou de cumprir com o que tinha sido legalmente acordado no acto do divórcio(sim, o meu pai deixou de contribuir com a mensalidade que o tribunal tinha acordado com ele... O meu pai nunca contribuiu para o meu sustento nem para o da minha irmã), usando como desculpa o facto de a minha mãe ter um namorado.
Não nego que foi difícil para nós, é sempre difícil para as crianças não ter a presença de um dos progenitores no seu processo de crescimento, mas o meu avô (esse sim o meu verdadeiro pai) e o namorado da minha mãe preencheram o seu lugar da melhor forma. 
O período mais complicado foi, sem dúvida, o da fase do 1º Ciclo. A minha professora era extremamente católica e contra a lei do divórcio (dizia que um casamento abençoado por Deus tinha de ser eterno) e eu era alvo da sua descriminação, dizia-me coisas que para mim enquanto criança não faziam muito sentido, mas que hoje são fáceis de perceber. Para ela eu era filha do diabo, porque a minha mãe tinha engravidado sem estar casada e anos mais tarde se tinha divorciado. Não me deixava fazer prenda para o dia do pai, porque para ela eu não merecia porque os meus pais estavam separados e o meu pai não se interessava por mim. Se houvesse algum problema na sala de aula eu era sempre culpada, porque não tinha educação, porque faltava um homem em casa para me educar, a culpa era sempre da "filha da divorciada". Fazia e dizia muitas outras barbaridades que eu calava e guardava para mim e não contava à minha mãe para não a magoar. Um dia, o meu namorado (que na altura era só meu amigo e colega de turma) contou à mãe dele um desses comportamentos da minha professora e a mãe dele em conversa com a minha mãe acabou por lhe transmitir o que ele lhe tinha dito. A minha mãe foi à escola, falou com a minha professora e ela negou tudo, disse que nós, as crianças, tínhamos uma imaginação maléfica... Mas deve ter-se sentido ameaçada porque o seu comportamento em relação a mim suavizou.
Se eu sentia falta do meu pai? Sim, nessa fase sentia, muita. Principalmente quando via os pais dos meus amigos participarem nas suas festas da escola e aniversário, quando os via ir buscar os filhos à escola e às actividades em que estávamos inscritos... Mas eu tinha o meu avô, ele fazia isso tudo e muito mais comigo e com a minha irmã. Éramos e ainda somos as suas meninas.
Fui crescendo e percebendo que o facto de o meu pai não estar presente na minha vida não era assim tão mau. Quando comecei a sair à noite, via todas as minhas amigas queixarem-se do facto de os pais não as deixarem sair até tarde, enquanto a minha mãe sempre me deu "carta branca", via os pais delas proibi-las de fazer certas e determinadas coisas e pensava "Ainda bem que o meu pai não está nem aí para o que eu faço ou deixo de fazer". A minha mãe sempre me deixou crescer em liberdade, aprender com os meus próprios erros e experiências, tenho a certeza que se o meu pai estivesse por perto não teria nem metade dessa liberdade.
Hoje, não me lembro da última vez que falei pessoalmente com o meu pai, mas já foi há mais de 10 anos. Se tenho saudades dele? Não, não se pode ter saudades de uma pessoa que não se conhece. 
O meu pai não esteve presente nos grandes momentos da minha vida. Não esteve ao meu lado quando eu soube em que universidade tinha entrado, não esteve na minha festa de 18 anos,  não foi à minha queima, não esteve presente na minha defesa pública da dissertação de mestrado, não viu o pedido de casamento que o meu namorado me fez, não viu como eu fiquei feliz quando consegui arranjar o meu primeiro emprego... Mas, sinceramente, acho que a presença dele não ia tornar esses momentos mais felizes e a sua falta não foi sentida.

Há uns anos atrás tentou voltar a aproximar-se de mim e da minha irmã, mas nem eu nem ela estávamos receptivas ao papel que ele queria desempenhar na nossa vida, não conseguíamos olhar para ele como um pai... Não podia chegar e querer apoderar-se desse estatuto e de todas as funções que lhe são inerentes (a minha mãe nunca me deu ordens e esteve sempre ao meu lado, ele que nunca se preocupou nem esteve presente não tinha o direito de nos tentar obrigar a fazer nada, de controlar e comandar a nossa vida, só porque se lembrou de um momento para o outro que tinha duas filhas). As coisas não correram bem e ele voltou a afastar-se. Lembro-me de a minha mãe, o meu avô e o meu namorado me terem dito para lhe dar uma oportunidade, mas o meu orgulho não deixou e além disso, como pai não tinha espaço na minha vida.

Sinceramente, espero que ele seja feliz com a escolha que fez há muitos anos atrás, espero que não se arrependa de ter dado mais valor à sua carreira que à sua família. Porque caso esteja arrependido vai ter de viver com o remorso de não ter visto as suas filhas crescer e não ter participado nesse crescimento.
Quando na televisão ouço falar do meu pai e do grande profissional que ele é sinto orgulho, sinto-me bem por ele. Afinal conseguiu o que ele sempre quis, uma carreira promissora. Pena que para isso tivesse perdido as duas filhas.

O facto de o meu pai não ter estado presente na minha vida, só faz com que eu sinta mais orgulho no ser humano fantástico que é o meu avô, que sempre esteve ao meu lado, sempre me apoiou e sempre fez de tudo para me ver feliz. Esse sim, o meu verdadeiro e único pai.




40 comentários:

  1. fiquei comovida com a tua história...felizmente sempre tive e tenho um pai que me acompanha em tudo! Que me apoio e que está sempre em casa na hora das refeições!!! Mas ainda bem que sempre tiveram o avô assim ficou um lugar preenchido :P

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    1. Sim, o meu avô esteve sempre presente, felizmente, e acabou por preencher o lugar que o meu pai deixou vazio. :)

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  2. Que história, é bom teremos um avô assim na nossa vida :)
    Beijinhos :)

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  3. Nem tenho palavras!
    As pessoas fazem estas coisas e nós continuamo-nos a admirar com os que abandonam animais...
    Parabéns por teres conseguido ultrapassar isso da melhor maneira. Se é que alguém consegue ultrapassar verdadeiramente uma experiêcia dessas...:/

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    1. É bem verdade, às vezes tenho mesmo vergonha de pertencer a esta raça... Ainda dizem que nós somos os animais racionais.
      Não se consegue ultrapassar na totalidade, apesar de eu fingir que sim, mas fica sempre aquela insegurança e por vezes dou por mim a ter receio de um dia mais tarde formar uma família e passar pelo mesmo. Ao nível das relações pessoais sou muito desconfiada e por ter receio que as pessoas me abandonem sou muito dura e desligada com elas, sou mais racional que passional. Os meus amigos e o meu namorado sabem que isso é uma defesa e conseguiram conquistar-me ao longo dos anos, mas as pessoas que não me conhecem tão bem tomam-me por convencida e arrogante.

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    2. Os dentes arrancam-se e deixam de doer, mas fica sempre um espaço vazio para onde não se pode mastigar.
      É bom ter alguém que entenda. xD
      Bom fim de semana.

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    3. Gostei muito dessa forma de pensar. :D
      Bom fim de semana, aproveita bem as tuas férias. :)

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  4. Que texto tão bonito! E concordo, pai não é aquele que só participa no momento da concepção.

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  5. bem, estou maravilhada com a tua história. não pelo facto de o teu "pai" não estar presente na tua vida, mas porque, apesar de tudo, conseguiste crescer feliz, e tornar-te numa grande mulher. e tudo o que aconteceu ensinou-te a dar valor aos que realmente te amam. continua com essa força, tenho a certeza que és orgulho da tua mãe, irmã e avô. és um exemplo :')

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    1. Não sou um exemplo, muito longe disso... Faço coisas erradas demais para ser considerada um exemplo. Sim, eu valorizo muito o meu avô, a minha mãe e a minha irmã. Sem eles eu não era nada. :)

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  6. Pode-se dizer que mesmo assim tiveste um desfecho feliz, ainda bem que tens o teu avô :))
    Não gostei nada da atitude da tua professora, dá-me nojo pessoas assim, ainda por cima a crianças, infelizmente há muitos por ai assim !
    És uma lutadora :)

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    1. Infelizmente há muitos professores assim, com falta de humanidade... Actualmente também sou professora e já tive de trabalhar com colegas que tinham comportamentos semelhantes ao da minha professora primária, apesar de actualmente a sociedade estar muito mais evoluída e com uma mentalidade mais aberta.
      Obrigada Princesa. :)

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  7. Sou a favor da tua opinião que pai é quem cuida nao quem gera! A minha história em relação ao meu progenitor também é complidada.
    Mas bom, fico muito feliz que apesar de não teres tido o teu pai presente na tua vida, sejas muito feliz :)

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    1. Sim, sou muito feliz e cresci rodeada de muito amor... Aprendi a viver com a ausência dele e acabei por deixar de sentir a sua falta. :)

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  8. O que importa é o amor que tens das pessoas que fazem parte da tua vida. Se é o "pai verdadeiro" ou não, é um detalhe. Ainda bem que cresceste num ambiente familiar positivo, com um avô e uma mãe maravilhosos :) *

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    1. Exactamente. Às vezes ficar privados de algumas coisas faz-nos perceber o verdadeiro valor das outras. :)

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  9. quase chorei a ler isto princesse! mas é óptimo ler que estás bem, que superaste toda a crueldade de que foste vitima na infância. e tenho a certeza que nunca deixarás os teus filhos passar pelo mesmo!
    r: ainda bem que achaste ma belle +.+

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    1. Óh Princesa, não precisas de estudar, eu estou mesmo bem... Dei a volta por cima. Já passou. :)
      Quanto a ter filhos, acho que não quero ter filhos, por mais que goste de crianças, não me imagino a ter uma minha... Além disso vou ter sempre receio que algo de semelhante lhe aconteça. :/

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  10. Quando acabei de ler, confeso que me apetecia chorar, gosto de ler este tipo de coisas. Eu dou-me muito bem com o meu pai, mas ele por vezes enerva-se sem chegar a haver problema, enfim... :)

    -Leonor

    a-pequena-bailarina-cor-de-rosa.blogspot.com

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    1. É normal os pais chatearem-se com os filhos, ralharem e até darem umas palmadas... Eu preferia ter tido isso a não ter nada. :)

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  11. Uau... que história :) Pai é quem cria, sem dúvida :)

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  12. O que mais importa é que te sentes amada por todos os outros que estiveram sempre contigo ao longo do teu crescimento. São essas pessoas especiais que te devem preencher o coração :)

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  13. Acho que o teu texto diz tudo sobre o assunto. Ainda bem que tens a estabilidade dada pela tua mãe e pelo teu avô e não te deixas afectar pelo facto de o teu pai não ter estado presente :)

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    1. Não trocava o amor do meu avô, da minha mãe e da minha irmã por nada neste mundo. Quando se tem o amor de pessoas como elas, não se precisa do amor de mais ninguém. :)

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  14. " não há relação que resulte se não houver entrega de ambas as partes." Concordo plenamente!
    E pai é quem cria e está presente, independentemente de ter fornecido o espermatozóide ou não. O que importa é que és feliz :)

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  15. Consigo rever-me em algumas partes do teu texto.
    E no teu lugar tinha dado uma oportunidade ao teu pai. Não para ele ocupar o lugar que não quis mas para fazer parte da tua vida. A vida é tão curta.

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    1. Não consigo, sou extremamente orgulhosa. E o lugar que ele agora queria na minha vida, já está ocupado. Quando eu precisei dele, enquanto era mais nova e mais frágil ele não se importou, actualmente já não preciso dele, aprendi a viver com a sua ausência... E por mais que tente, não o consigo perdoar.

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  16. Compreendo-te e acho que reagiria da mesma forma que tu. Também não tive um pai presente, mas no meu caso a culpa não foi dele e eu tenho imenso orgulho no homem que ele foi. Também tive um avô assim, que me criou e a quem amo de uma forma inexplicável :)

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    1. O meu avô é o meu orgulho. É o meu verdadeiro pai. :D

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  17. Fiquei muito impressionada com este texto e com a tua história, saber o que passaste. Além de ter aprendido um pouco mais de ti, nota-se que reages muito bem ao assunto, até pela maneira como escreves as coisas, sem muitos remorsos ou tristeza.
    E que tens uma boa família que o substitui :)

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    1. Sim, com o tempo aprendi a gerir da melhor forma da minha vida... Também não adiantava lamentar-me e eu não sou nada de lamentos nem baixo astral. :)
      Sim, tenho a melhor família sempre do meu lado. :D

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  18. de lagrima no canto do olho...

    Beijinho

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Never look back, if Cinderella went back to pick up her shoe, she wouldn't have become a princess ♥